I
- Mãe! Preciso de mais umas duas caixas.
- Pega aqui na escada.
- Obrigada!
- Falta muito ainda para você terminar de embalar suas
coisas?
- Não, só faltam os meus livros mesmo.
- Quantas caixas com livros você já tem?
- Ah mãe… algumas…
- Quantas Dri?
- Quatro das grandes, com essas duas caixas aqui, tem três
das pequenas e coloquei uns livros dentro das malas… – Andrielle dá seu melhor
sorriso inocente já sabendo o que vem depois.
- Dri! Pra que tanto livro? E você sabe que vamos pagar a
mais para mandá-los para a casa da sua avó, de avião… não da pra você dar
alguns deles? – Perguntou Gabriela, desesperançosa, a sua filha.
- Eu vou deixar as caixas grandes com a Nathy, são os
livros que eu já li. E muitos deles ela quer ler. Mas os outros são novos e
ainda não li… – disse Andrielle triste por saber que gastos nesse exato momento
não eram exatamente bem vindos.
Vendo a tristeza no rosto de sua filha, Gabriela disse com
um pouco de alegria:
- Três caixas pequenas já fica mais fácil e depois que nos
organizarmos lá, podemos mandar o dinheiro pra Nathy e ela envia os livros pra
você aos pouco, o que você acha Dri?
- Claro mãe! Acho que posso deixar mais uma das caixas
pequenas então, e depois ela pode me enviar esses – disse com um sorriso
iluminando seu rosto.
Gabriela não gostava de ver sua filha desanimada, mas por
hora não podia ajudar. Elas precisavam se mudar o quanto antes para Espanha,
para a casa de sua mãe. O tempo passava muito rápido e ela não podia esperar
mais.
- Então vamos terminar logo de empacotar nossas coisas!
- Sim senhora!
Sorrindo, Andrielle subiu correndo as escadas para seu quarto.
É difícil fingir que tudo está bem quando na verdade não
se quer ir embora. Andrielle morou a vida toda no Brasil, tem seus amigos que
estão com ela desde sempre.
Tem a escola! Ela sentiria falta da escola, não por ser
popular ou a aluna mais inteligente da sala, mas porque se sentia bem ali com
seus amigos, seus professores, as aulas de teatro, a feira de ciências e,
principalmente, a feira do livro.
Centenas de livros, diferentes temas e assuntos, autores
brasileiros e estrangeiros… Ela não sabe explicar quando ou por que surgiu essa
sua paixão, mas ela sempre lia, sempre tinha um livro de papel ou digital
consigo.
Talvez pela possibilidade de estar sempre em um novo
mundo, se identificando com personagens, se apaixonando por outros, e até rindo
ou chorando. E não se importava em falar com seus personagens em público,
aconselhá-los ou brigar com eles.
- Coisa de quem gosta de livros! – ela dizia toda vez que
sua mãe a pegava conversando com um livro.
Mas o fato é que essa mudança abrupta a tirou do seu
centro. Ela perdeu o rumo e o sentido.
Entendia que sua avó precisava que sua mãe voltasse para
cuidar dela e como não conheceu seu pai e elas não tinham mais nenhum familiar
no Brasil, ela precisaria ir com sua mãe. Mas mesmo assim não se sentia feliz
com isso.
Sua mãe não lhe explicou ao certo, só dissera havia uma
semana que elas precisariam ir com urgência para a Espanha, para a casa de sua
avó depois de receber uma ligação, com uma conversa muito curta em que sua mãe
apenas respondeu “hum”, ou “entendi” e “está bem mãe”.
Gabriela conseguiu vender a casa em dois dias, não pegou o
melhor preço que poderia, mas a urgência se fazia palpável.
Andrielle também estava muito triste por já ter toda sua
festa de 15 anos planejada e organizada para o começo daquele ano. Não seria
uma festa com toda aquela pompa, vestidos enormes e cadetes, mas seria uma
baladinha em um buffet que sua mãe conseguiu organizar para ela. Todos os seus
amigos já haviam confirmado presença. E agora, isso não aconteceria mais.
Afastando esses pensamentos, ela voltou a organizar suas
coisas.
O último livro foi posto na última caixa pequena e ela
escreveu: “Nathy cuide destes para mim também. Assim que der, te peço para
enviá-los para mim! Love Dri.”
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