XII
Na manhã seguinte, ao acordar, Gabriela tentou entender o
que havia acontecido. Por que ela estava em sua cama e não ao lado de sua
filha? Por que se sentia como se um enorme peso lhe houvesse sido tirado das
costas? Por que se sentia tão calma, mesmo com tudo o que estava acontecendo?
Quando a verdade lhe acertou com todas as suas forças, ela
se levantou da cama enraivecida com sua mãe. Como ela ousou? Como ela pode
fazer tal coisa? A simples ideia de tal possibilidade deixou Gabriela doente de
raiva.
- Como você se atreveu a fazer isso comigo? – Gritou
Gabriela a plenos pulmões para sua mãe que estava na cozinha fazendo mais chá.
- Gabriela, foi necessário. Você estava muito nervosa e
agitada e naquele estado você não podia ajudar a ninguém. Nem mesmo a sua
própria filha!
- O que você fez comigo?
- Te mandei se acalmar e dormir. Apenas isso. Pode parar
com esse drama desnecessário, vá tomar um banho que sua filha precisa de você.
As minhas ervas estão acabando e preciso ir até a casa da Flora para buscar
mais.
- Não ouse me tratar como se você fosse superior ou algo
assim!
Lucia perdeu o ar paciente sob os berros da filha e gritou
de volta:
- ¡Gabriela, por Dios Santísimo! Chega! A única coisa que
estou tentando fazer desde que vi que sua filha seria uma de nós é te ajudar.
Eu sei que ela pode morrer, por isso a trouxe para cá! Aqui posso cuidar dela!
Será que você não entende que estou tão preocupada com a minha neta quanto
você? Que tudo o que estou fazendo é tentar manter a calma enquanto você se
desespera e me inferniza com esses seus ataques ridículos e descabidos? Você
não é mais uma criança Gabriela! Haja como uma mulher, haja como uma mãe! A mãe
que Andrielle precisa neste momento! Uma mulher forte que eu lutei a vida toda
para criar.
Arfando, depois de pôr para fora toda sua raiva das
atitudes infantis da filha e frustração pelo que sua neta estava passando,
Lucia se recompôs e num tom mais ameno, mas muito serio disse:
- Agora vá tomar um banho. Quando terminar, pegue o chá,
leve para o quarto e dê para a Andrielle um copo de hora em hora. Vou dar uma
dose enquanto você toma banho. Agora vá.
Sem nem pensar em argumentar com a mãe, Gabriela deu meia
volta e foi tomar banho.
***
- Uma Safira? – Perguntou Flora sem crer em seus ouvidos.
Lucia demorou quarenta minutos para chegar à casa da
amiga.
- Quando ela me contou sobre o sonho dela, que ela estava
se afogando, a primeira coisa que me veio a cabeça foi isso, mas logo
desconsiderei a ideia. Uma Safira era uma ideia absurda. Mas depois de ontem,
daquela luz azulada sobre ela, não tem como duvidar. Ela vai ser uma Safira a
primeira depois de muito tempo em minha família.
- Não só na sua família Lucia. A última Safira que nasceu
foi a Ágata e ela já tem setenta e quatro anos. Desde então, não temos o
registro de mais nenhuma Safira.
- A Ágata foi a última? Não pode ser. Tanto tempo assim
sem nenhuma Safira nascer.
- Sim, é! Ninguém sabe dizer o porquê, mas elas
simplesmente deixaram de nascer, até agora pelo menos.
- E eu preciso da sua ajuda para garantir que minha neta
sobreviva. As crises estão piorando e a Gabriela está desesperada, não posso
culpá-la.
- Fique tranquila, tenho aqui o que você precisa no
estoque. Acho que isso dá para duas semanas, mas se precisar de mais me avise.
Flora entregou um saco com as mais variadas ervas e
plantas para Lucia.
- Mas aqui não tem só as que eu preciso para fazer o chá
da Dri.
- Claro que não. Você nunca leva só o que precisa para o
momento. Não sei por que toda vez é a mesma coisa com você Lucia.
As amigas riram, mas a riso deixou seus rostos rapidamente.
As coisas para Andrielle estavam realmente mais difíceis
do que costumavam ser. A quantidade de ervas e chá que ela estava consumindo
eram muito altas. Lucia nunca vira nada igual. Por mais que tentasse acalmar a
filha, ela mesma estava começando a se preocupar com neta.
- Lucia, minha amiga, a preocupação está em seu rosto e as
próprias plantas estão sentindo isso.
Ao dizer isso Flora olhou para as plantas que estavam
murchando. Lucia olhou para elas e se concentrou para não deixar transparecer o
que acontecia dentro de si. As plantas voltaram ao normal.
- Eu preciso me concentrar mais, apenas isso.
- Se precisar de qualquer coisa, me avise. Vou conversar
com outras Esmeraldas para ver o que podemos fazer, se mais alguém desenvolveu
alguma outra combinação mais potente do que a minha.
- Muito obrigada Flora. Agora eu preciso voltar. O chá que
deixei pronto já deve estar no final.
- Vá minha amiga. E que as pedras marquem o seu caminho.