IX
Andrielle demorou a pegar no sono. Ela continuava com
febre e os chás de sua avó não pareciam fazer muito efeito para diminuí-la.
Contudo, o gosto parecia melhor.
Ao cair em sono profundo ela começou a sonhar. Um sonho
muito estranho. Ela flutuava. Não, ela não estava flutuando, ela estava se
afogando. Ela não podia respirar. O desespero de seus sonho se refletia em seu
corpo e ela se debatia violentamente na cama. Ar, ela precisava de ar, ela ia
morrer afogada. Seu grito de agonia trouxe Gabriela e Lucia ao seu quarto.
Era muita água e ela não conseguia chegar à superfície por
mais que nadasse e se debatesse ela precisava de ar.
- Mãe, faz alguma coisa, ela está fervendo em febre e se
debatendo!
O desespero na voz de Gabriela era tamanho que comoveu
Lucia. Ela sabia que era normal, já havia passado por isso inúmeras vezes.
- Levante a cabeça dela um pouco para que ela tome o chá,
mas você não pode acorda-la! Sonhos são muito poderosos.
Agora sua boca se enchia de água. Ela vai morrer e não tem
nada que ela possa fazer. Ela tem que se conformar. Não tem razões para se
debater e tentar subir. Não tem fim. É uma imensidão azul. É calma. Não é tão
ruim ficar ali.
- Pronto, ela está se acalmando, hija.
- Mãe, diz que ela vai conseguir. Não posso perder minha
filha mãe!
Gabriela estava sentada ao lado da cama de sua filha,
segurando sua mão e chorando. Pensar em perdê-la era uma dor insuportável.
- Acalmate hija mía! Essa foi só a primeira noite. Amanhã
precisamos falar com ela e descobrir sobre o que ela sonhou. E precisamos
aumentar a quantidade de chá que ela está tomando. Acredite, estou fazendo tudo
o que posso para que ela consiga. Essas ervas me foram enviadas pela própria
Flora do estoque particular dela. Confie nela e em mim também.
Lucia voltou para cama e Gabriela manteve vigília ao lado
da cama da filha por mais um tempo.
Quando viu que ela não gritava mais, sua temperatura
estava estabilizada e ela voltou a dormir tranquilamente, voltou para o seu
quarto e tentou dormir um pouco.
Pela manhã, Andrielle ainda se lembrava da sensação de se
afogar e depois da paz que sentiu quando parou de lutar.
Ao descer as escadas encontrou sua mãe e sua avó sentadas
à mesa muito sérias.
- Está tudo bem com vocês? Parece que viram um fantasma.
- Mais ou menos hija. Ontem você nos deu um baita susto à
noite. Começou a gritar e se debater, estava banhada em suor. Com o que você
estava sonhando?
Andrielle parou sob o batente da porta e as encarou com os
olhos arregalados.
- Eu gritei? Mas... mas... no meu pesadelo eu estava me
afogando, eu tentei gritar, eu tentei nadar, mas eu não conseguia sair do
lugar. Foi horrível no começo. Até que eu simplesmente desisti e parei de
tentar sair do meio da água, então tudo ficou tranquilo e eu não estava mais
com medo.
- Afogada Dri?
- É mãe... Foi muito estranho.
- Uma Safira, depois de tanto tempo. Impossível.
- O que foi Abu?
- Não, nada hija, pensei alto só. Sente-se e coma. Depois
dessa noite, você vai precisar. Aqui está o seu chá. E tirando o seu pesadelo
como você está se sentindo?
- Estou bem melhor para dizer a verdade.
- Bom saber minha filha. Então vamos aproveitar hoje para
conhecer a escola em que você vai estudar. Já estamos no meio de janeiro e as
aulas aqui já começaram.
- Minhas férias já acabaram? Não pode! As aulas no Brasil
só começam no final do mês! Isso não é justo mãe!
Lucia começou a rir enquanto a neta choramingava.
- Hija, nós só vamos ver a escola, seus documentos ainda
não chegaram do Brasil. Então você ainda não pode começar a estudar.
- Não pode começar a frequentar a escola. Mas você vai
começar a estudar aqui em casa Dri. Não é só porque mudamos de país que suas
notas vão mudar também.
- Dá uma folga para a menina Gabriela. Ela é inteligente e
vai conseguir recuperar o tempo perdido depois que começar a frequentar a
escola. Agora coma hija! Assim que você terminar vamos visitar a escola.
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