Tuesday, December 24, 2013

Andrielle Stein - Capítulo XII

XII

Na manhã seguinte, ao acordar, Gabriela tentou entender o que havia acontecido. Por que ela estava em sua cama e não ao lado de sua filha? Por que se sentia como se um enorme peso lhe houvesse sido tirado das costas? Por que se sentia tão calma, mesmo com tudo o que estava acontecendo?
Quando a verdade lhe acertou com todas as suas forças, ela se levantou da cama enraivecida com sua mãe. Como ela ousou? Como ela pode fazer tal coisa? A simples ideia de tal possibilidade deixou Gabriela doente de raiva.
- Como você se atreveu a fazer isso comigo? – Gritou Gabriela a plenos pulmões para sua mãe que estava na cozinha fazendo mais chá.
- Gabriela, foi necessário. Você estava muito nervosa e agitada e naquele estado você não podia ajudar a ninguém. Nem mesmo a sua própria filha!
- O que você fez comigo?
- Te mandei se acalmar e dormir. Apenas isso. Pode parar com esse drama desnecessário, vá tomar um banho que sua filha precisa de você. As minhas ervas estão acabando e preciso ir até a casa da Flora para buscar mais.
- Não ouse me tratar como se você fosse superior ou algo assim!
Lucia perdeu o ar paciente sob os berros da filha e gritou de volta:
- ¡Gabriela, por Dios Santísimo! Chega! A única coisa que estou tentando fazer desde que vi que sua filha seria uma de nós é te ajudar. Eu sei que ela pode morrer, por isso a trouxe para cá! Aqui posso cuidar dela! Será que você não entende que estou tão preocupada com a minha neta quanto você? Que tudo o que estou fazendo é tentar manter a calma enquanto você se desespera e me inferniza com esses seus ataques ridículos e descabidos? Você não é mais uma criança Gabriela! Haja como uma mulher, haja como uma mãe! A mãe que Andrielle precisa neste momento! Uma mulher forte que eu lutei a vida toda para criar.
Arfando, depois de pôr para fora toda sua raiva das atitudes infantis da filha e frustração pelo que sua neta estava passando, Lucia se recompôs e num tom mais ameno, mas muito serio disse:
- Agora vá tomar um banho. Quando terminar, pegue o chá, leve para o quarto e dê para a Andrielle um copo de hora em hora. Vou dar uma dose enquanto você toma banho. Agora vá.
Sem nem pensar em argumentar com a mãe, Gabriela deu meia volta e foi tomar banho.

***

- Uma Safira? – Perguntou Flora sem crer em seus ouvidos.
Lucia demorou quarenta minutos para chegar à casa da amiga.
- Quando ela me contou sobre o sonho dela, que ela estava se afogando, a primeira coisa que me veio a cabeça foi isso, mas logo desconsiderei a ideia. Uma Safira era uma ideia absurda. Mas depois de ontem, daquela luz azulada sobre ela, não tem como duvidar. Ela vai ser uma Safira a primeira depois de muito tempo em minha família.
- Não só na sua família Lucia. A última Safira que nasceu foi a Ágata e ela já tem setenta e quatro anos. Desde então, não temos o registro de mais nenhuma Safira.
- A Ágata foi a última? Não pode ser. Tanto tempo assim sem nenhuma Safira nascer.
- Sim, é! Ninguém sabe dizer o porquê, mas elas simplesmente deixaram de nascer, até agora pelo menos.
- E eu preciso da sua ajuda para garantir que minha neta sobreviva. As crises estão piorando e a Gabriela está desesperada, não posso culpá-la.
- Fique tranquila, tenho aqui o que você precisa no estoque. Acho que isso dá para duas semanas, mas se precisar de mais me avise.
Flora entregou um saco com as mais variadas ervas e plantas para Lucia.
- Mas aqui não tem só as que eu preciso para fazer o chá da Dri.
- Claro que não. Você nunca leva só o que precisa para o momento. Não sei por que toda vez é a mesma coisa com você Lucia.
As amigas riram, mas a riso deixou seus rostos rapidamente.
As coisas para Andrielle estavam realmente mais difíceis do que costumavam ser. A quantidade de ervas e chá que ela estava consumindo eram muito altas. Lucia nunca vira nada igual. Por mais que tentasse acalmar a filha, ela mesma estava começando a se preocupar com neta.
- Lucia, minha amiga, a preocupação está em seu rosto e as próprias plantas estão sentindo isso. 
Ao dizer isso Flora olhou para as plantas que estavam murchando. Lucia olhou para elas e se concentrou para não deixar transparecer o que acontecia dentro de si. As plantas voltaram ao normal.
- Eu preciso me concentrar mais, apenas isso.
- Se precisar de qualquer coisa, me avise. Vou conversar com outras Esmeraldas para ver o que podemos fazer, se mais alguém desenvolveu alguma outra combinação mais potente do que a minha.
- Muito obrigada Flora. Agora eu preciso voltar. O chá que deixei pronto já deve estar no final.
- Vá minha amiga. E que as pedras marquem o seu caminho.


Andrielle Stein - Capítulo XI

XI

Reunidas na cozinha após Andrielle ir para o quarto, Lucia viu a preocupação estampada na no rosto da filha.
- Calma hija.
- Como você quer que eu fique calma mãe? A febre da Dri voltou e está pior agora.
- É normal Gabriela, quantas vezes mais vou precisa te dizer isso. Muito me espantou a febre ter cessado por quatro dias. Você deveria ser mais forte do que isso. Te preparei desde pequena para esse momento. Você acompanhou suas primas e algumas amigas, esperou a sua própria vez que até hoje não sei por que não veio. Sabe muito bem como todo o processo funciona.
- Mãe, estamos falando da minha filha! Será que a senhora não consegue entender? – O rosto tomado pelas lágrimas e o desespero aparente em sua voz. – Não posso perder minha filha! Ela é a única coisa que me sobrou além da senhora, depois que o Andrew se foi.
- Todas as mães passam pela mesma coisa que você está passando agora. E você sabe que ele não se foi de verdade.
- O Andrew não vem ao caso agora, ele não está aqui para me ajudar nesse momento. Nem a mim nem a filha dele! E eu não quero saber sobre as outras mães e suas filhas! Eu estou preocupada com a minha filha!
- Se acalme Gabriela, você vai acordar a Andrielle.
- Se ela acordar eu já fico feliz, mas não posso ver minha filha morrer mãe!
- Ela não vai morrer. Já te disse que estou cuidando disso, acredite mais em mim e nas plantas.
Nesse momento elas ouviram um grito vindo do andar superior e saíram correndo para o quarto de Andrielle.
Ao chegarem no quarto dela, Gabriela ficou estática na porta bloqueando a entrada de sua mãe, que precisou empurrá-la para pode entrar.
Andrielle estava emanava em uma luz azul. Lucia ficou atônita. Em todos os seus anos nunca havia visto nada igual.
- Uma Safira! Minha neta é uma Safira. Faz tantos anos desde a última vez que tivemos uma Safira em nossa família.
Após um longo momento de silêncio, elas foram trazidas de volta a realidade quando Andrielle gritou novamente. Um grito de dor profundo e se contorceu na cama.
- O chá Gabriela, vá buscar o chá para ela, rápido!
Na urgência de atender ao pedido da mãe, ela quase caiu nas escodas. Correu até a cozinha, pegou o bule que ainda estava sobre o fogão e um copo e subiu correndo em direção ao quarto da filha.
Lucia estava ajoelhada ao lado da cama da neta quando ela teve um novo espasmo e gritou com a dor que o acompanhava. Gabriela tremia ao colocar o chá no copo e entregá-lo para mãe que dizia alguma coisa que ela não conseguia entender próximo ao ouvido de Andrielle enquanto mantinha uma das mãos em sua cabeça e retirava a que estava em seu peito para pegar o copo.
Ela levantou a cabeça da neta e lhe deu um pouco do chá. A princípio Andrielle se engasgou e começou a tossir o líquido. Na segunda tentativa de Lucia, a menina conseguiu engolir o chá. Quando o primeiro copo estava vazio foi possível ver o corpo dela, que a pouco estava rígido com os espasmos e contrações, voltar ao normal.
- É melhor dar mais uns dois copos para ela. Assim ela conseguirá dormir a noite toda.
Gabriela encheu novamente o copo e o entregou a sua mãe. Ao final do terceiro copo Andriele já estava com uma aparência mais tranquila e parecia dormir calmamente.
- Mãe, ela ainda está com febre. – Disse Gabriela ao se aproximar e colocar a mão sobre a cabeça da filha que estava suada depois de todo o sofrimento que passou.
- A febre só vai abandoná-la quando ela completar 15 anos. E vamos ter que aumentar a frequência com que ela tomará o chá.
- Mais uma semana e meia assim eu vou enlouquecer. É muito sofrimento ver minha filha passando por isso e eu não poder fazer alguma coisa. E o pior é pensar que eu posso passar por tudo isso à toa. Que ela pode me deixar no dia em que ela completar 15 anos. Eu não vou conseguir passar por isso.
- Acredite um pouco mais na sua filha Gabriela!
- Ela é uma Safira! Você mesma disse. Uma Safira! E não existem muitas delas por um único motivo: porque elas não sobrevivem! Por essa razão que não temos uma em nossa família há gerações!
Gabriela estava histérica, gritando e chorando. O desespero era aparente em seu rosto.
Lucia, penalizada por ver a filha assim, tomou uma decisão muito difícil para ela. Levantando-se da cama da neta, foi até a filha, abraçou-a e disse em seu ouvido:
- Acalme-se.
Gabriela entrou em transe e Lucia a conduziu até o seu quarto. Colocou a filha na cama e sussurrou:
- Durma.
Deixou a filha deitada, que imediatamente caiu no sono e voltou para o quarto da neta. Sentou-se na cadeira que havia lá, ligou o abajur e começou a ler.


Andrielle Stein - Capítulo X

X

Ao voltar para casa, Andrielle correu para o quarto e ligou o computador. Queria muito falar com a Nathália e contar tudo o vira na nova escola.
Não era uma escola grande como a que estudava no Brasil, com pelo menos sete turmas de cada ano por período. Para dizer a verdade a escola era bem menor se comparada a que ela estudara.
A construção era antiga, com prédios de no máximo quatro andares, toda sua fachada em pedra, e janelas pequenas. Sua avó explicara que as pedras ajudavam a manter o frio fora das construções no inverno que era muito rigoroso e o mesmo se aplicava as janelas que quanto menores, menos frio elas permitiam entrar.
Tinha um total de três prédios: o prédio principal continha a direção, coordenação, secretaria, biblioteca, uma piscina olímpica (que estava desligada por causo do inverno) e uma quadra coberta. Nos outros dois prédios estavam as salas de aula, um prédio que no Brasil seria a Educação Infantil e o Fundamental I e o outro que era o maior prédio dos três, com quatro andares, para o Fundamental II e o Ensino Médio, ou seja, o prédio em que ela estudaria.
A moça que apresentou a escola para elas falava muito rápido e Andrielle não entendeu tudo o que ela disse, mas Gabriela sempre traduzia quando via a cara de desespero da filha. Ainda que elas tivessem o costume de falar em espanhol em casa, sua mãe falava mais pausadamente, para ter certeza de que ela a compreenderia. Nesse momento Andrielle começou a rezar para que seus professores e colegas fizessem o mesmo que sua mãe.
A escola era cercada por várias árvores, o que tornava o local bem calmo e tranquilizador. Ainda que tudo estivesse branco pela neve, ela ficou imaginando como seria aquela paisagem na primavera. E ela viu que atrás dos três prédios havia um lago, que agora estava congelado e coberto pela neve, mas que no verão deveria ser possível nadar nele.
Durante o tour pela escola elas não entraram nos prédios onde as aulas estavam sendo ministradas, apenas passaram na frente deles. Quando Andrielle disse que gostaria de conhecer pelo menos o prédio em que estudaria, ela viu que sua mãe e avó trocaram um olhar preocupado rapidamente e em seguida sua avó disse algo que ela não compreendeu e todas se encaminharam para o prédio principal onde sua Gabriela e Lucia se encarregaram de preencher uma pilha de papéis e deixaram a menina esperando na recepção.
Enquanto esperava, ela começou a andar pela recepção e se encaminhou para um armário com alguns troféus: vôlei, natação, balé, basquete, futebol e competição de matemática entre outros. Mas o que chamou sua atenção foi uma placa de madeira, pendurada na parede oposta a porta de entrada, com um tipo de uma flor com três pétalas, cada uma delas de uma cor, uma vermelha, uma verde e uma azul e no centro, onde as pétalas se uniam, havia um sol amarelo. Logo abaixo ela leu a inscrição, gravada em uma placa de metal fixada à madeira.

“Poderoso Rubí, rogamos para que nos traiga su protección y abra nuestros corazones para las amistades y los amores.
A ti valerosa Esmeralda pedimos que permita que nuestras habilidades sigan por generaciones, promueva el auto-conocimiento para que logremos el equilibrio y la paciencia.
Virtuoso Zafiro, te pedimos a ti que nos des la paz y la felicidad, permitiéndonos la comunicación, comprensión, intuición e inspiración.
Escucha nuestras oraciones y muéstranos el futuro.
Que las piedras marquen nuestro camino.”[1]

O texto fazia referencia as pedras preciosas que formavam a flor. Andrielle achou estranho, mas muito bonito. Parecia até uma oração.
Enquanto ela apreciava a estranha flor de pedras, sua mãe e sua avó saíram do escritório e elas voltaram para casa.


-Finalmente você ficou online! Estou aqui morrendo de vontade de te contar sobre a escola. Fui visitá-la hoje.
- Você não está mais verde Dri.
- Ha-ha! Como você é sem graça Nathy. Mas sim estou melhor, a febre passou. Parece que o chá estranho da Abu fez efeito, ou o vírus foi embora mesmo.
- Depois de quase duas semanas, o mínimo era o vírus ir embora né. Não contaminou mais ninguém por aí não?
- Não Nathy.
- Então me conta da escola, quando começam suas aulas? Como é lá? O que você fez hoje? E os gatinhos? Quando eu chegar em julho você vai ter que me apresentar todos.
- Minhas aulas começam quando minha papelada de transferência chegar aqui. Lá é maravilho, vou te mandar as fotos que tirei. E eu não fiz muita coisa, está tudo congelado e cheio de neve, nem mesmo o meu prédio eu pude conhecer, ou seja, não vi nenhum gatinho lá hoje.
- Que sem graça! Por que você não conheceu o prédio em que vai estudar?
- Quando eu pedi, minha mãe e a Abu fizeram uma cara de susto, sei lá, e a Abu falou algo muito rápido e enrolado e eu não entendi, deve ser algum dialeto espanhol que não aprendi e acabamos voltando para o prédio principal e elas ficaram um tempão preenchendo papéis.
- Que estranho. Quem sabe elas não ficaram com medo de que você contaminar os outros alunos!
- Já falei que eu não estou mais doente!
- Eu sei, mas gosto de te pentelhar mesmo assim. Você ficou doente quase o tempo todo desde que chegou aí, não tinha nem forças pra falar comigo no Skype. Pera ai Dri. – Nathália virou a cabeça para a porta e gritou - Fala mãe!
Andréa estava gritando do andar de baixo da casa:
- Vem comer Nathália, sua comida está esfriando. Se eu te chamar de novo, você vai ficar sem computador por uma semana.
- Mãe estou falando com a Dri.
- Ótimo, manda um beijo meu para ela e vem comer, depois você volta.
Se voltando para a tela do computador novamente:
- Saco... Você ouviu né, tenho que ir.
- Manda um beijão para sua mãe também.
Nathália olhou de novo para porta e gritou:
- Mãe, a Dri mandou você lamber sabão!
Horrorizada com a amiga Andrielle exclamou:
- Nathy! Olha o que você vai falar pra sua mãe.
- Brincadeira mãe. Ela mandou um beijo. Estou indo Dri, antes que eu fique incomunicável. Mais tarde eu volto.
- Até!



[1] Poderoso Rubi, pedimos para que você nos traga sua proteção e abra nossos corações para as amizades e os amores. A você valiosa Esmeralda, pedimos que permita que nossas habilidades sigam por gerações, promova o autoconhecimento para que consigamos obter o equilibro e a paciência. Virtuosa Safira te pedimos que no dê a paz e a felicidade, permitindo-nos a comunicação, compreensão, intuição e a inspiração. Escuta nossas orações e nos mostre o futuro. Que as pedras marquem o nosso caminho.

Wednesday, December 11, 2013

Andrielle Stein - Capítulo IX

IX


Andrielle demorou a pegar no sono. Ela continuava com febre e os chás de sua avó não pareciam fazer muito efeito para diminuí-la. Contudo, o gosto parecia melhor.
Ao cair em sono profundo ela começou a sonhar. Um sonho muito estranho. Ela flutuava. Não, ela não estava flutuando, ela estava se afogando. Ela não podia respirar. O desespero de seus sonho se refletia em seu corpo e ela se debatia violentamente na cama. Ar, ela precisava de ar, ela ia morrer afogada. Seu grito de agonia trouxe Gabriela e Lucia ao seu quarto.
Era muita água e ela não conseguia chegar à superfície por mais que nadasse e se debatesse ela precisava de ar.
- Mãe, faz alguma coisa, ela está fervendo em febre e se debatendo!
O desespero na voz de Gabriela era tamanho que comoveu Lucia. Ela sabia que era normal, já havia passado por isso inúmeras vezes.
- Levante a cabeça dela um pouco para que ela tome o chá, mas você não pode acorda-la! Sonhos são muito poderosos.
Agora sua boca se enchia de água. Ela vai morrer e não tem nada que ela possa fazer. Ela tem que se conformar. Não tem razões para se debater e tentar subir. Não tem fim. É uma imensidão azul. É calma. Não é tão ruim ficar ali.
- Pronto, ela está se acalmando, hija.
- Mãe, diz que ela vai conseguir. Não posso perder minha filha mãe!
Gabriela estava sentada ao lado da cama de sua filha, segurando sua mão e chorando. Pensar em perdê-la era uma dor insuportável.
- Acalmate hija mía! Essa foi só a primeira noite. Amanhã precisamos falar com ela e descobrir sobre o que ela sonhou. E precisamos aumentar a quantidade de chá que ela está tomando. Acredite, estou fazendo tudo o que posso para que ela consiga. Essas ervas me foram enviadas pela própria Flora do estoque particular dela. Confie nela e em mim também.
Lucia voltou para cama e Gabriela manteve vigília ao lado da cama da filha por mais um tempo.
Quando viu que ela não gritava mais, sua temperatura estava estabilizada e ela voltou a dormir tranquilamente, voltou para o seu quarto e tentou dormir um pouco.

Pela manhã, Andrielle ainda se lembrava da sensação de se afogar e depois da paz que sentiu quando parou de lutar.
Ao descer as escadas encontrou sua mãe e sua avó sentadas à mesa muito sérias.
- Está tudo bem com vocês? Parece que viram um fantasma.
- Mais ou menos hija. Ontem você nos deu um baita susto à noite. Começou a gritar e se debater, estava banhada em suor. Com o que você estava sonhando?
Andrielle parou sob o batente da porta e as encarou com os olhos arregalados.
- Eu gritei? Mas... mas... no meu pesadelo eu estava me afogando, eu tentei gritar, eu tentei nadar, mas eu não conseguia sair do lugar. Foi horrível no começo. Até que eu simplesmente desisti e parei de tentar sair do meio da água, então tudo ficou tranquilo e eu não estava mais com medo.
- Afogada Dri?
- É mãe... Foi muito estranho.
- Uma Safira, depois de tanto tempo. Impossível.
- O que foi Abu?
- Não, nada hija, pensei alto só. Sente-se e coma. Depois dessa noite, você vai precisar. Aqui está o seu chá. E tirando o seu pesadelo como você está se sentindo?
- Estou bem melhor para dizer a verdade.
- Bom saber minha filha. Então vamos aproveitar hoje para conhecer a escola em que você vai estudar. Já estamos no meio de janeiro e as aulas aqui já começaram.
- Minhas férias já acabaram? Não pode! As aulas no Brasil só começam no final do mês! Isso não é justo mãe!
Lucia começou a rir enquanto a neta choramingava.
- Hija, nós só vamos ver a escola, seus documentos ainda não chegaram do Brasil. Então você ainda não pode começar a estudar.
- Não pode começar a frequentar a escola. Mas você vai começar a estudar aqui em casa Dri. Não é só porque mudamos de país que suas notas vão mudar também.

- Dá uma folga para a menina Gabriela. Ela é inteligente e vai conseguir recuperar o tempo perdido depois que começar a frequentar a escola. Agora coma hija! Assim que você terminar vamos visitar a escola.

Andrielle Stein - Capítulo VIII

VIII


Três dias depois da chegada de Andrielle, Nathália chama a amiga pelo Skype.
Andrielle não estava se sentindo muito bem, mas estava com saudade da amiga. Elas já haviam se distanciado antes, contudo esta era a primeira vez em que elas passariam tanto tempo afastadas.
Ao atender a chamada, Nathália logo gritou para o computador.
- Mas que cara é essa?
- Oi pra você também Nathy!
- Oi! Agora me diz que cara essa, você está realmente verde? Se for vomitar avisa e sai correndo, ou nem avisa, só vai!
- Achei que você fosse minha amiga.
- Eu sou, por isso disse que você poderia ir sem nem me avisar. Mas fala ai, que cara é essa Dri?
- Estou doente, com febre. A Abu disse que provavelmente foi por causa da mudança brusca de temperatura.
- Se cuida, você está com uma cara péssima!
- Estou tomando um chá estranho que a Abu está fazendo. Não é dos melhores do universo, mas dá pra beber.
- E de resto, o que me conta? Já foi visitar algum lugar? Já conheceu alguém?
- Você lembra que tem três dias que eu cheguei? A maior parte do tempo fiquei aqui arrumando as coisas. Vendo os presentes que vocês me deram. A carta ficou enorme, mas eu li ela toda e o álbum de fotos então, eu adorei! Obrigada mesmo Nathy!
- Maravilha! Esse era o objetivo! Vou te falar, deu um trabalhão colar todas essas folhas, mas foi super legal ver o que o povo escreveu pra você, tem uns que viajaram legal. A maioria escreveu coisas bem legais!
- Você leu minha carta sua palhaça?
- Obvio! Tinha que ter um teste de qualidade, ou você achou que eu ia colocar tudo sem nenhum filtro? Vai que mais alguém se declara ou te xinga? Tem louco pra tudo. Mas teve uma carta que eu não vi enquanto montava...
- Que carta?
- Do Fê.
- Ele me deu junto com o colar, não te contei?
- Como assim? Ele te deu uma carta e você não me contou?
- Jurava que já tinha te contado, desculpa! Mas foi tanta coisa ao mesmo tempo, que acho que deixei passar. Pera ai, que vou tirar uma foto e já te mando.

Dri,
Nunca fui muito bom com as palavras, mas vou tentar já que é pra você.
Desde pequenos estudamos juntos, e com o passar do tempo te vi crescer. Você mudou... muito! Da menina quietinha que ficava sentada isolada para uma garota de opinião, que sabe se impor e vive lendo.
Não tem como não se lembrar da Bela quando olho pra você, seus cabelos longos e castanhos, que não sei por que você insiste em alisar, ele é lindo cacheado! Você gostar tanto da cor azul, nem que seja um brinco, ou um anel, você sempre tem alguma coisa com você. Lembro quando você fez aquela mexa azul, ficou legal, mas não combinou muito com você.  Ainda bem que durou só um mês.
Eu nem sei o que estou escrevendo Dri.
Só sei que eu gosto tanto de você e te perder sem poder dizer isso... A ideia de você não estar mais aqui quando eu chegar na sala. Não te ver mais nas festas ou no shopping com o pessoal...
Dri, eu gosto muito de você e queria ter tido coragem para ter dito isso para você antes.
Aproveite a Europa e não deixe de dar notícias, ok?!
Beijão grande! E espero que goste do presente.
PS.: Eu sei que tá meio sem sentido, mas ao contrário de você não sou muito bom com as palavras.

- Nem precisava avisar que ele não é muito bom com as palavras, né! Mas foi muito fofo Dri! E se posso dizer, ele me perguntou ontem sobre você. Posso dizer que você está verde e quase morrendo?
- Nathy! Não se atreva! Sinta uma cotovelada a distancia nas suas costelas! Com uma amiga como você não preciso de inimiga!
- Estou brincando né sua tonta! Não vou contar que você tá quase morrendo ai nesse inverno horroroso.
- Mas diga pra ele que estou bem. E que ele também pode vir falar comigo, eu não mordo. Pelo menos não a esta distância.

***
Chegou o dia de ir embora e deixar tudo o que ela conhecia para trás. Nathália e sua mãe Andréa levaram Andrielle e Gabriela ao aeroporto. Quando as meninas se deram conta de que a separação era real e estava acontecendo se abraçaram e começaram a chorar. Gabriela penalizada com a sena tentou acalma-as.
- Meninas, sem chorar. Vocês vão se ver de novo agora em julho. A Dri vai estar no final do período de aulas, mas você vai passar quinze dias com a gente lá Nathy.
- Isso mesmo Nathália, eu já acertei tudo com a Gabriela e você vai pra casa da Dona Lucia dia quinze de julho. Assim você atrapalha menos a Dri. – Disse Andréa em concordância.
- Jura mãe! E como você não me contou isso antes? – Perguntou Nathália incrédula por não haver sido informada da noticia antes.
- Calma Nathália. Agora se despede da Dri.
Enquanto as duas meninas se abraçavam e continham as lágrimas, Gabriela e Andrea foram um pouco mais para o lado e começaram a conversar.
- Déa, muito obrigada, por tudo mesmo minha amiga! Guardar as coisas para mim na sua casa. Finalizar a venda da minha casa.
- Imagina Gabi. Mais do que você fez por mim na época do meu divórcio com o Tales, acolhendo minha filha na sua casa. Isso é realmente o mínimo que posso fazer por você. Assim que toda papelada estiver certa, mando para você. E quando vocês estiverem estabelecidas me avise que vou mandando as coisas da Dri que ficaram em aqui.
- Assim que eu arrumar um trabalho te mando o dinheiro e você me manda as coisas dela.
- Por favor né, Gabi. Dinheiro não é problema pra mim você sabe. É só me avisar que eu mando. O endereço da sua mãe eu já tenho. E de mais a mais, a Nathália pode levar o que faltar em julho na mala dela. Meu medo é que a Alfandega segure se eu mandar muita coisa de uma vez e te taxe na hora de retirar.
- Déa, muito obrigada por tudo! E vamos separar essas duas antes que elas comecem a chorar de novo e a Dri e eu percamos o voo.
- Nathália, vamos! Chega de despedida ou elas vão se atrasar.
- Como você é delicada né mãe! Tchau amiga! Me liga quando você chegar.
- Pode deixar Nathy! Tchau tia!
- Tchau querida! Façam uma boa viagem.
- Com a Dri você é toda delicada né mãe! Mas comigo são os dois pés no peito.
- Para de melodrama Nathália, por favor. Tchau Gabi, vamos nos falando.
- Tchau Déa, e obrigada de novo. Tchau Nathy, até julho!
- Tchau tia! E manda um beijo pra Abu!

- Mandaremos. Vamos Dri.

Andrielle Stein - Capítulo VII

VII


Quando Nathy disse que era uma carta de metro ela não brincou!
Cada um de seus amigos escreveu pelo menos cinco folhas que Nathy cuidadosamente uniu fazendo uma enorme carta com pensamentos, sentimentos, comentários, brincadeiras. Piadas e desenhos (ou tentativas).
É impossível conter as lágrimas ao se lembrar de todos os momentos descritos e no carinho de todos eles.
O álbum de fotos não ajudou muito também. Ver todos sorrindo durante os passeios da escola, as festas ou os trabalhos que fizeram na casa de alguém. Tem fotos das apresentações na escola, feiras de ciências e peças de teatro, no cinema com aqueles óculos 3D horríveis, no parque e até uma no zoológico quando a Paula se assustou com o leão rugindo e ficou toda torta na foto.
 - Ah não essa música já é demais também! – Diz Andrielle desligando o rádio, mas o refrão ficou em sua cabeça: “I'm breaking free from these memories / Gotta let it go, just let it go / I've said goodbye set it all on fire / Gotta let it go, just let it go[1].
Ela decide descer para tomar o café da manhã. Sua primeira noite foi bem agitada, ela não conseguiu dormir direito porque teve um sonho muito estranho. Por mais que tente não consegue se lembrar do que era, mas aquela sensação a incomodou desde que acordou sobressaltada durante a noite.


Gabriela desceu e foi direto para a cozinha, o cheiro do pão de cenoura de sua mãe a acordou e ela se lembrou de quando era pequena. Voltar à Espanha depois de tanto tampo, se fosse em outras circunstancias seria maravilhoso.
Ao entrar na cozinha encontrou a mesa posta com o maravilhoso pão intocado sobre a bandeja, suco de laranja, leite, frutas, manteiga e geleia. Mas o que chamou sua atenção foi a quantidade de plantas e ervas que estavam sobre a pia.
- ¡Buenos días mamá! Você está fazendo...
- Sim, é o chá que a Dri vai precisar tomar até o dia do aniversário dela. Para que ela sinta menos tudo o que está por vir.
- Mãe, eu estou muito preocupada com ela. Lembro do que as minhas primas passaram.
- É por isso que estou preparando este chá Gabriela. Ela vai ficar um pouco mais sonolenta e vai querer dormir. Algumas dessas plantas vão amenizar a intensidade das mudanças já que elas vão acontecer de qualquer forma e não temos o que fazer. De hoje até o aniversário dela temos exatamente trinta dias.
O rádio começa a tocar e elas olham para cima.
- Mas ela já acordou? Venha e me ajude a terminar este chá. A qualquer momento ela vai descer é bom que não veja isso para não se assustar. Mexa o chá lentamente, até levantar fervura. Eu vou guardar isso aqui.


- ¡Buenos días hija! ¿Qué tal estás?
- ¡Buenos días Abu! Bom dia mãe! Estou bem. E vocês?
Sua avó está no fogão cozinhando, então ela dá um beijo em sua mãe primeiro.
- Dri, você está quente. Mãe, você tem um termómetro?
- No banheiro, no armário sob a pia tem uma caixa azul do lado esquerdo.
- Dri, senta aqui começa a comer alguma coisa que vou lá buscar.
- Não precisa mãe. Eu estou bem!
Ignorando os protestos de sua filha, Gabriela subiu as escadas e foi até o banheiro. Ao voltar Andrielle estava se servindo de suco de laranja e comendo pão de cenoura que sua avó sempre fazia.
Gabriela voltou e colocou o termômetro sob o braço da filha e esperou. Quando ele apitou Andrielle tirou o termômetro e o deu para sua mãe.
- Trinta e oito e meio. Você está com febre Dri.
- Deve ter sido pela mudança brusca de temperatura do Brasil para cá. Tire essa blusa grossa e sua temperatura vai baixar. E tome um gole deste chá que acabei de fazer para você.
- Obrigada Abu!
Lucia entrega a caneca de chá para a neta que fica olhando o chá e fazendo caretas por causa do cheiro estranho.
- Hija, prove antes de fazer caretas!
Andrielle bebeu o chá e ele não estava tão ruim quanto ela imaginou. Com certeza não entraria para sua lista de favoritos, mas não era de todo ruim.


***

- Onde você se enfiou Dri? Chegou um monte de gente querendo falar com você e não te achei em lugar nenhum! E que colar lindo é esse?
- O Fê que me deu!
- Para tudo, você estava com ele? Onde?
- Lá fora, estávamos sentados no banco e conversamos e...
- E... e o que criatura? Não me deixa no suspense! O que aconteceu?
- Ele me deu esse colar e depois me beijou.
- Eu não acredito! Que máximo! Como foi? Fala!
- Foi maravilhoso! Como mais poderia ser? Ele me comparou à Bela.
- A do desenho? Aquela que vive lendo igual a você?
- É. Ai Nathy! Obrigada pela melhor noite da minha vida! Você é a melhor amiga!
- Quando a noite acabar você me agradece!






[1] Avril Lavigne (Feat. Chad Kroeger)  - Let Me Go


Andrielle Stein - Capítulo VI

VI


Andrielle sentiu seu rosto ficando quente, suas mãos começaram a suar e suas pernas bambearam. Ela só conseguia ficar brava consigo mesma por estar tão nervosa.
Ela não sabe dizer exatamente quando foi que a Nathalia saiu de perto dela para deixá-la a sós com Fernando. Assim que ele a avistou, Fernando veio direto em sua direção.
- Oi Dri,
- Oi Fê.
- Você está linda!
- Obrigada. Você também!
“Você também? Você também?” Não existe mais nada para ser dito além de “Você também?”. Andrielle se repreendeu mentalmente.
- E obrigada por ter vindo.
- Meio atrasado, mas isso é culpa do cabeçudo do meu irmão que esqueceu de colocar gasolina no carro. Precisamos esperar pelos meus pais, para eles rebocarem a gente até um posto de gasolina.
Andrielle sorriu ao perceber que estava agradecida por ele estar lá, ao mesmo tempo, se pudesse, bateria em Carlos por ser tão desatento, viver no mundo da lua e quase tê-la feito ter uma crise de nervos.
- Você fica linda sorrindo Dri.
- Claro que não! – disse ela sem jeito ao ouvir o elogio.
- E mais ainda quando fica vermelha e sem graça. Quando vi o evento da Nathy, dizendo que você estava indo embora, eu fiquei sem chão. Você sempre esteve aqui, ao meu lado...
Ao sentir uma pontada em seu peito e a tristeza tomando conta dela, ela baixa a cabeça e olha para o chão. Não consegue encará-lo por sentir exatamente a mesma coisa que ele.
Ele coloca seus dedos sob o queixo dela, forçando-a a olhar para ele.
Ela luta com seus sentimentos, aquele não é o momento para chorar, não com ele todo lindo bem diante dela.
- Ei Dri, não fica triste. Esquece o que eu acabei de dizer! Hoje é a sua noite de despedida e ela tem que ser perfeita. Vem comigo.
Ele a pega pela mão e eles saem pela porta lateral do salão de festas.
- A Nathy pediu para que trouxéssemos um presente que te fizesse lembrar de cada um de nós, mas não quero deixar o meu com os outros.
A noite está fresca, e eles caminham até um banco longe dos postes de luz. Ao se sentar, Andrielle passa as mãos pelos braços. Um vestido tomara que caia não é uma boa opção para o lado de fora do salão.
- Aqui, coloca minha jaqueta.
- Não precisa Fê.
- Para de ser boba, você está com frio. E a minha blusa é de manga comprida.
Agradecida, ela aceita a jaqueta. O perfume dele a envolve e por um instante ela se sente mais próxima a ele do que nunca se sentiu. Ao abrir os olhos, ele está observando-a e a deixa sem jeito. Rapidamente ela pergunta:
- O que você queria me dizer Fê?
- Não é dizer, é dar. É o seu presente.
- Fê, não precisa se presente, já fiquei muito feliz por você ter vindo.
- Dá licença. – Diz ele colocando o a mão no bolso de sua jaqueta e tirando um pequeno embrulho. – Espero que você goste.
Ela pega o embrulho das mãos dele. Não importa o que seja, ela já está muito feliz por ele ter se importado o suficiente para comprar um presente para ela.
Ela tira o papel e abre a caixa quadrada. Dentro da caixa há um colar de prata. A corrente é delicada e o pingente é uma rosa. Ela fica olhando o colar.
- Fê, é lindo! Muito obrigada!
Ela o abraça e não consegue segurar as lágrimas que escorrem por seu rosto.
Relutantemente, eles se desvencilham um dos braços do outro. Ele limpa as lágrimas do rosto dela.
- Poxa, se eu soubesse que esse seria um presente tão ruim, que te faria chorar, teria comprado outra coisa. – diz ele com um sorriso meigo no rosto.
- Deixa de ser bobo. Eu amei o presente, parece a rosa que a Fera tem guardada no castelo dele. E eu estou chorando de alegria pelo presente, tristeza por ir embora, é tanta coisa ao mesmo tempo, que nem sei o que estou sentindo.
- Vem cá, deixa eu colocar o colar em você.
Ela entrega o colar para ele. Ao tentar se virar, ele a segura, mantendo-a de frente para ele. Ele se aproxima para fechar o colar. Ao terminar, ele desliza uma das mãos para o queixo dela e o levanta um pouco, o suficiente para conseguir beijá-la.
Finalmente, seu primeiro beijo. E o momento não poderia ser mais mágico. Um presente lindo. Seu grande amor está ali com ela. Apenas a lua e as estrelas de testemunhas. Ela se sente inundada por uma alegria sem tamanho.
Ela não sabe quanto tempo durou o beijo. Foi eterno ao mesmo tempo em que foi muito breve. Mas foi maravilhoso.
- E não parece, é a flor da Bela e a Fera. Comprei já faz um tempo em um site gringo, só não tinha achado a oportunidade para lhe dar. Você me lembra muito a Bela, o tempo todo lendo. Só me diz que eu não pareço o Gaston. – diz ele rindo meio sem jeito.
- Fica tranquilo, o Gaston acabou de ir embora – ela se lembra do Cassio e ri. - Você está mais para Fera depois que se apaixona pela Bela.
Ao dizer isso ela fica vermelha. O pensamento dele apaixonado por ela era fora da realidade e ao mesmo tempo que era muito bom.
- É realmente uma pena que eu tenha passado tempo demais como Fera e demorado para me aproximar dessa Bela que sempre esteve aqui ao meu lado.
Andrielle sentiu seu rosto ficar quente e corar enquanto Fernando continuava:
- É incrível como sempre perdemos as oportunidades quando elas estão ao nosso alcance. E o pior é que só me dei conta do quanto eu realmente gostava de você agora que você está indo embora e não podemos fazer nada.
Ele a puxa para perto de si e diz:
- Na verdade podemos.
Então ele a beija novamente.
O único desejo em sua mente era de que a noite ficasse congelada ali, para sempre. Ela nos braços do Fernando, sem ter que pensar em Europa ou em deixar tudo e todos.

Ela só queria poder ficar ali.

Andrielle Stein - Capítulo V

V


A espera infinita nas esteiras para pegar toda sua bagagem finalmente chegara ao fim. Andrielle e Gabriela se dirigiam à saída para encontrar Lúcia.
Ao avistar a neta e a filha, Lúcia não conteve as lágrimas. A última vez que as vira, Andrielle ainda tinha nove anos.
Gabriela saiu correndo, deixando o carrinho com suas malas no meio do caminho, que Andrielle pegou e continuou empurrando, enquanto sua mãe corria e abraçava sua avó. Ao ver as duas chorando e se abraçando ela viu o quanto uma sentia saudades da outra.
Ela parou ao lado das duas com os carrinhos e esperou até que elas se desgrudassem e então foi sua vez de ser abraçada por sua avó. Mesmo fazendo tanto tempo que não a via, o abraço era tão familiar, tão gostoso que ela não conteve o choro. Ela chorava por estar revendo a avó, por ter deixado sua vida no Brasil, por não poder mais ver a Nathy e o Fê.
- Vale, vale hija mía. No llores más. Ahora estás aquí y todo se va a arreglar.[1]
- Eu sei Abu. Eu sei. Como a senhora está?
- Estou muito bem! Vamos, a viagem de carro vai ser longa.
No carro, Andrielle observava a paisagem se transformar conforme ia deixando a cidade.
Uma hora e quarenta minutos depois elas chegaram na casa de Lúcia. A casa continuava do mesmo jeito que se lembrava. Um sobrado de dois andares, todo em tijolos vermelhos, com um grande jardim que circundava a casa. As várias flores agora estavam cobertas pela neve.
- Você não mudou absolutamente nada na casa mãe.
- Aqui fora não, gosto das minhas plantas, na primavera e no verão a casa fica tão linda. Mas lá dentro, bueno, mudei algumas coisas. Uma delas Dri, é que tenho Wi-Fi! Tenho certeza que você vai saber aproveitar muito bem.
- Muito obrigada Abu! Assim que levarmos tudo lá pra dentro vou ligar pra Nathy, avisando que chegue e estou viva.
- Não se preocupe, pode entrar que sua mãe e eu levamos as malas. Vai hija, vai!
Andrielle olhou para mãe que assentiu com a cabeça. Então ela só levou a mala que trouxe dentro do avião e foi direto para dentro da casa onde estava mais quentinho.
- E agora mamá?
- Y ahora que tenemos que aguardar hija.[2]
- Eu estou preocupada com a Dri mãe. Por que agora? Por que ir embora não funcionou?
- Eu já tinha te avisado que se tivesse que ser, a distancia não iria mudar em nada a realidade.
- Quando você ficou sabendo?
- No dia em que te liguei hija.
- Ela está tão decepcionada, por ter deixado os amigos e a escola, a festa de 15 anos dela já estava toda programada e ela já tinha tudo planejado. Me corta o coração vê-la se fazendo de forte e fingindo que deixar tudo para trás não é nada de mais, sempre sorrindo para que eu não me sinta tão mal com a situação.
- Como nossas filhas são parecidas, não?!
- Ahí mamá!
- Beuno, vamos para dentro porque está ficando muito frio aqui fora e voltou a nevar e vocês devem estar com fome. Vámonos hija![3]


- DRI!!!
- NATHY!!!
- Me conta! Como foi a viagem de avião? Como tá o clima ai? Tô vendo aqui pela net que tá a maior friaca ai!
- Acabei de chegar na casa da Abu e começou a nevar! A viagem foi tranquila, demorou porque fizemos duas escalas. Tô morrendo de fome pra dizer a verdade. E morrendo de curiosidade pra abrir os presentes que vocês me deram! Muito mancada sua só me entregar os presentes ontem, dentro de uma mala, pra eu trazer e não me contar o que tem e nem me deixar dar uma espiadinha.
- Agora que você já chegou você já pode ver! E você vai gostar muito eu garanto. Dentro do bauzinho de madeira tem um presente de todo mundo, deu um trabalhão pra montar, mas você vai gostar!
Junto a imagem de Adrielle se juntam sua avó e sua mãe.
- Oi Tia Gabi! Oi dona Lúcia!
- Por Dios Nathália! Já te disse para não me chamar de dona! Ou me chama de Lúcia ou de Abu, como a Dri, porque não gosto do título “abuela”. Me sinto muito nova por dentro e por fora para isso!
- Desculpa Abu. É força do habito e culpa da minha mãe! Pode brigar com ela!
- Agora que as mocinhas já se falaram um pouco, vamos jantar Dri. Sua avó disse que já deixou um monte de coisa pronta para nos jantarmos e por melhor que fosse a comida desse avião, nada se compara a comida dela. Beijos grandes para você Nathy e daqui umas três horas a Dri liga o computador para vocês continuarem se falando.
- Tia, só mais um pouquinho! Por favor!
- É mãe só mais um pouquinho, eu juro que já saio do Skype!
- Vale, vale! Vou terminar de colocar a comida na mesa com a sua mãe e quando terminar te chamamos e você vem comer, está bem?
- Gracias Abu! – Andrielle deu um abraço em sua avó e voltou sua atenção para o celular
- É! Valeu Abu! – Gritou Nathalia.



[1] Vale, vale hija mía. No llores más. Ahora estás aquí y todo se va a arreglar. = Pronto, pronto minha filha. Não chore mais. Agora você está aqui e tudo vai se ajeitar.
[2] Y ahora que tenemos que aguardar hija. = E agora que temos que aguardar mina filha.
[3] Vámonos hija! = Vamos filha!

Andrielle Stein - Capítulo IV

IV


Presentes? Mas por que todos estão trazendo presente? Não é uma festa de aniversário, é minha festa de despedida.
     Esse pensamento deixou Andrielle um pouco triste. Ir embora, sem saber por quanto tempo, ou se um dia poderia voltar. Mas agora não era o momento para pensar nisso.
     A cada momento chegavam mais e mais pessoas na festa que Nathy havia organizado. Ela mal podia acreditar que tantas pessoas estivessem ali para se despedir dela. Tudo bem que alguns foram porque era uma festa, já que algumas pessoas ela nunca tinha visto na vida, mas mesmo assim, os rostos conhecidos a deixaram muito feliz.
     Ao avistar sua amiga que recepcionava algumas pessoas, Adrielle foi até ela.
     - Nathy, por que eles estão trazendo presente?
    - Alguém abriu uma conversa no Facebook, para a qual você obviamente não foi convidada, e combinaram de trazer presentes para você. E antes que você reclame, não são exatamente presentes comprados, você vai ver quando abrir. Agora chega de papo e vai se divertir!
     Mais e mais pessoas chegavam e vinham cumprimentar Andrielle, dizer que era um pena que ela estivesse indo embora. Outros diziam que ela era muito sortuda por poder ir embora do Brasil e ir morar na Europa.
     A festa estava ficando cada vez mais cheia, com mais pessoas dançando ou reunidas em volta das mesas, comendo e conversando. Estava muito divertido, mas ainda não estava completa.
     - Nada do Fernando ainda né amiga?
     - Tem certeza que ele confirmou que vinha Nathy?
     - Você viu na lista de confirmados do evento. Ele vem sim! Agora vai curtir um pouco, vai.
       Uma hora e meia… Fazia uma hora e meia que a festa havia começado e nada dele.
     De repente Andrielle sente uma mão sobre seu ombro e um frio percorre todo seu corpo, sem se dar conta ela prende a respiração e sente a pessoa circulando-a para parar em sua frente.
     Ela volta ao normal ao ver Cassio, um colega da escola com quem quase não falava. Ele até que era bonito, um japonês alto, atlético e rico. A família dele tinha muito dinheiro, o que atraia muitas meninas da escola, mas ela não ficou exatamente interessada nele justamente por ele ser muito popular.
     - Oi Dri, tudo bem?
     - Oi Cassio, tudo bem! Obrigada por ter vindo!
     - Era sua despedida, eu tinha que vir.
     - Menos vai. Não é pra tanto assim, é só uma festinha de despedida.
     - É a SUA despedida. Meu, você tá indo embora. Indo pra Europa! E eu não vou te ver mais!
     Andrielle não conseguiu decifrar a expressão do rosto de Cassio por causa da pouca luz do ambiente, mas o jeito como ele passou a mão pelos cabelos lisos e ficou olhando para o lado com um ar incrédulo, fez com que ela se sentisse meio desconfortável.
     - Oi? Calma. O que está acontecendo Cassio? Você está bravo?
     - Não Dri, não estou bravo, é mais… Sei lá… Você tá indo embora!
     - Ok, essa parte eu entendi.
     - Dri, eu gosto de você e ia te falar isso na sua festa de 15 anos.
     Ela ficou olhando o para o garoto sem saber o que dizer sem conseguir acreditar no que acabara de ouvir.
     - Diz alguma coisa Dri, por favor!
     - O que você quer que eu diga? Do nada você me para no meio da festa e me diz que gosta de mim sem nunca ter me dado nem uma única pista disso.      Me diz, o que você esperava que acontecesse? Que eu dissesse que te amo? Que me jogasse nos seus braços?
     - Calma Dri, não precisa ser grossa também!
     - Não estou sendo grossa, só estou tentando entender o que você quer que eu faça depois disso que acabou de me dizer. Olha Cassio, você é lindo, popular e rico. Tem duzentas meninas que morreriam para estar com você.
     - Dri, deixa pra lá. Olha boa viagem e esquece o que eu disse. Aproveita sua festa. Tchau!
     Andrielle ficou vendo o menino sair da festa pisando duro. E ficou ali parada, sem entender o que tinha acabado de acontecer.
     - O que foi que aconteceu? Por que o japa gostoso tá indo embora todo bravinho?
     - Porque o “japa gostoso e louco” acabou de se declarar pra mim e esperava que eu me jogasse nos braços dele. Ou algo parecido. Ainda estou tentando entender.
     - Mundo para que eu quero descer! O quê?
     - Nem faça essa cara porque cheguei primeiro na terra da loucura alheia.
     - Nem eu poderia ter planejado um melodrama melhor pra sua festa.
     - Deixa de ser sem noção Nathy, por favor! A última coisa que eu queria, ou precisava antes dessa vigem era uma coisa dessas!
     - Uhum, mas a primeira coisa que você precisa acabou de entrar pela porta. Dá uma olhada ali!

***

       - Dri, amor, acorda. Arruma sua poltrona, já vamos pousar.