II
- Como assim Dri? Mas e sua festa de 15 anos? Já estava
tudo certo, ia ser a melhor festa ever!
E nós vamos começar o 1º ano, em menos de um mês… – Nathy ficou totalmente
desolada com a notícia da partida de Dri.
- Eu sei Nathy, mas olha o lado positivo, você agora vai
ter uma casa para passar nas ferias de julho. Espanha! Europa! Vai poder postar
várias fotos no Insta, e no Face! Vai matar todo mundo de inveja! – Pelo menos
era a essa esperança que ela se agarrava com todas as suas forças para não
desanimar e preocupar ainda mais a sua mãe.
- Ah claro! Super fácil e barato ir pra Europa né Dri?
- Claro que é! Ao invés de comprar aquele celular
horroroso, você junta um pouco mais de dinheiro, e vem me ver!
- Não fala assim dele! Ele não é horroroso coisa nenhuma!
Ele é o melhor celular de todos os tempos!
- Claro que é! Um celular todo bloqueado que só pode usar
os programas pra ele e você ainda tem que pagar por 99% dos aplicativos e tudo
mais o que você precisar ou quiser… Quanta vantagem! – Disse Andrielle com todo
seu sarcasmo.
- Ai Dri, vou sentir tanto sua falta quando você for. As
coisas aqui não vão ser mais as mesmas. Quem é que vai me salvar nas provas me
passando todas as respostas pelo celular?
- Então é por isso que você vai sentir minha falta? Porque
eu te passo cola? – disse Dri fazendo um dramalhão e fez com que Nathy caísse
na gargalhada.
- Claro que não sua tonta! Vou sentir falta de você, por
você! – ela abraça a amiga com força. – Mas que agora eu estou lascada nas
provas de Espanhol, eu estou!
As meninas riram até doer a barriga e ao se recomporem,
Andrielle disse:
- Ainda bem que existe Skype, vamos poder nos falar todas
as noites.
- E Whatz e Viber…
- Você consegue imaginar que antigamente eles tinham que
se comunicar por carta? Zilhões de anos até conseguir receber a carta.
As meninas ficaram lá, sem dizer nada por um tempo. Nathy
entendia que a amiga precisaria ir embora, era decisão já tomada. Mas sentiria
muita falta dela. Elas estavam juntas desde o jardim de infância. Tiveram
momentos maravilhosos juntas e algumas brigas tontas que fazem parte de todas
as amizades. Mas sempre estiveram lá uma para a outra.
- Dri, vamos fazer uma festa!
- O que?
- É Dri! Vamos fazer uma festa de despedida! Você só vai
embora na terça, então temos o final de semana!
- Mas organizar uma festa em tão pouco tempo, não vai
rolar Nathy.
- Claro que vai! Deixa comigo que você vai ver que rola!
Bora pra minha casa.
- Mas Nathy deixa de ser louca! Não vai dar tempo!
- Nada de mas, nem meio mas! Bora!
***
- Mãe, a Abu[1] tá no
telefone!
Fazia tanto que Andrielle não falava com a avó, que só
depois de quinze minutos atualizando-a com as novidades sobre o que tinha
acontecendo na escola, falando sobre sua melhor amiga Nathy e contando sobre
suas férias, foi que ela lembrou que sua avó queria falar com sua mãe.
- Obrigada Dri!
Gabriela pegou o telefone. Fazia tempo que não falava com
sua mãe e aquela ligação inesperada a deixou tão feliz que ela sorria ao
atender.
-
¡Hola mamá! ¿Qué tal estás?[2]
- Gabriela, hija mía[3],
está na hora.
Aquela pequena frase a deixou sem chão. Não podia ser
verdade. Ela esperava que não fosse acontecer. Ano após ano ela rezou para que
essa ligação não acontecesse.
- Você tem certeza mãe?
- Sim.
- Hum…
- Vocês precisam vir o quanto antes para cá.
- Entendi.
- O que quer dizer que você tem até terça que vem para
chegar aqui.
- Está bem mãe.
- Sinto muito por isso minha filha, mas não tem o que ser
feito.
- Eu sei mãe. Bem, até logo então.
-
¡Hasta luego hija mía! Y lo siento muchísimo por eso.[4]
- Vale mamá. Besos.[5]
Andrielle não entendeu porque aquela ligação terminou tão
rápido, sua mãe costumava ficar horas no telefone com sua avó. Contava tudo o
que tinha acontecido desde sua última ligação.
Essa ligação tão curta a deixou preocupada. E ouvir sua
mãe andando de um lado para o outro lá embaixo, não melhorava em nada sua
sensação de desconforto.
Ela preferiu não descer e esperar sua mãe se acalmar um
pouco e então ela conversaria com a mãe.
Ao ouvir os passos de sua mãe na escada, Andrielle deixou
o livro de lado e ficou encarando a porta aberta, esperando por sua mãe.
Ao ver sua mãe e sua cara de preocupação, Andrielle se
endireitou na cama, cruzou as pernas e ficou olhando-a, sem saber como reagir.
- Andrielle, – o assunto era realmente sério, sua mãe só a
chamava pelo nome inteiro quando ela estava realmente encrencada, o que era bem
raro, ou quando algo muito sério havia acontecido – nós vamos embora na terça
que vem pra casa de sua avó.
- O que? Como assim? – ela ouviu palavra por palavra,
sabia o significado de cada uma, mas postas assim, juntas em uma frase, não
faziam o menor sentido.
- Sua avó precisa de nós. Desculpe filha, mas temos que ir
pra lá o quanto antes. Amanhã entro em contato com imobiliária para vendermos a
casa.
A filha, boquiaberta em cima da cama, cortou o coração de
Gabriela.
- Minha filha, eu realmente te peço desculpas, mas
precisamos ir, pois sua avó precisa de nós lá. Se não fosse extremamente
importante não te pediria algo assim, você sabe.
A única pergunta que passou por sua cabeça foi:
- A Abu está bem?
- Dentro do possível, está.
- Mas por que temos que estar lá até terça que vem?
- Não perguntei a ela, ela só me pediu para que
estivéssemos lá até essa data. E você sabe que é sempre bom fazer as coisas
como sua avó pede, não sabe?
Nesse momento ela se lembrou das poucas vezes em que sua
avó as havia visitado e das coisas que haviam acontecido.
Uma vez, brincando na calçada em frente de casa, sua avó
disse para que ela não se afastasse do portão e que se seu balão voasse que não
fosse atrás dele.
Ela não entendeu nada, pois tinha apenas 6 anos e
continuou brincando.
Um vento forte bateu e seu balão voou. Ela se levantou
para ir pegá-lo, mas lembrou do conselho de sua avó e ficou parada. Nesse
instante um menino em uma bicicleta passou tão rápido por ela que se ela
tivesse dado um passo a frente, a bicicleta teria acertado ela com força e ela
teria se machucado muito.
Sem argumentar, Andrielle simplesmente respondeu:
- Está bem mãe.
- Desculpe-me, filha, eu tentei!
Andrielle ficou olhando para sua mãe sem entender a frase,
mas antes que a menina pudesse perguntar, Gabriela saiu e foi para o seu
quarto.
Dormir foi impossível para Andrielle. Sua mãe revirava os
armários e a notícia dada no final da noite não facilitou em nada a chegada de
seu sono.
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